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Dia de Combate ao Fumo faz alerta para riscos de agravamento da Covid-19
Sábado, 29 de Agosto de 2020

“O medo de morrer me fez parar”. Foi assim que Litiane Klein, de 41 anos, resolveu largar o cigarro. Após duas décadas sendo fumante, Litiane precisou passar por uma cirurgia em 2015 e o temor da morte a fez abdicar do uso do tabaco.

Considerado a maior causa evitável isolada de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo, o cigarro causa cerca de 8 milhões de óbitos por ano, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS). Com isso, entidades de saúde em todo o Brasil promovem o 29 de agosto como Dia Nacional de Combate ao Fumo.

Litiane experimentou o primeiro cigarro aos 12 anos. Aos 14, já fumava com mais frequência em festas e, aos 18, já se considerava viciada em cigarro. “Depois dos 18, eu saí da casa dos meus pais e fumava todos os dias, porque antes eu não fumava na frente do meu pai”, comenta.Segundo a pneumologista Larissa Voss Sadigursky, tabagismo deve ser considerada uma doença, que está ligada à dependência química causada pelo consumo da nicotina.

A médica explica que o uso do tabaco, de qualquer forma, seja através do cigarro, cigarro de palha, charuto, cachimbo, narguilé ou cigarro eletrônico, pode provocar danos ao organismo.

“Os maiores danos que o cigarro pode causar são bronquite crônica, enfisema pulmonar, câncer de pulmão, de boca, garganta, rim, bexiga, esôfago, estômago e mama. Ele certamente está associado à grande maioria dos cânceres”, explica a especialista.

“Também pode provocar doenças vasculares - como derrame, infarto agudo do miocárdio, isquemia aguda de membros inferiores - e impotência sexual, além de piorar crises de asma e rinite”, completa a médica.Litiane, que tinha problemas cardíacos leves, viu um agravamento do estado de saúde e precisou passar por um cateterismo - procedimento realizado por meio da inserção de catéteres nos vasos sanguíneos das pernas ou dos braços, que são guiados até o coração.

“No dia que o médico me disse ‘você vai ter que fazer um cateterismo, seu coração não está bem’, eu saí da sala e fumei o último cigarro da minha vida. Quando bateu o medo real de morrer, me deu um grande pavor e parei de fumar espontaneamente”, pontua.

Antes disso, Litiane já havia tentado parar de fumar com medicamentos e uso de recursos, incluindo adesivos de nicotina, mas sem sucesso.

Conforme a pneumologista Larissa Voss Sadigursky, isso acontece porque a decisão de parar de fumar tem que vir do paciente, que não pode colocar nos remédios uma solução milagrosa.

“Não tem remédio no mundo que faça uma pessoa parar de fumar. O remédio é uma ajuda para diminuir a ansiedade gerada pela falta de cigarro, mas quem faz parar de fumar é o próprio paciente”, explica.

Risco de câncer

Já é de conhecimento geral que o tabagismo aumenta o risco para desenvolvimento de diversos cânceres. Em relação ao de pulmão, por exemplo, estima-se que o risco no fumante de longo prazo, em comparação com o não fumante, varia de 10 a 30 vezes. Esse risco aumenta conforme o número de cigarros fumados no dia e o tempo de duração do tabagismo.

Segundo a médica oncologista Marília Sampaio, outros fatores que podem interferir na probabilidade de desenvolver câncer de pulmão são a idade de início, o grau de inalação, o teor de nicotina dos cigarros, o uso de cigarro sem filtro (como o cigarro de palha) e o alcatrão.

“A cessação do tabagismo é extremamente importante para redução deste risco. Em relação ao câncer de pulmão, estudos mostram que ex-fumantes que cessaram o tabagismo por mais de 15 anos tiveram uma redução de 80% a 90% no risco de câncer de pulmão, em comparação com os tabagistas ativos. O tabagismo durante o tratamento do câncer está associado ao aumento da probabilidade de mortalidade por todas as causas, recorrência do tumor e desenvolvimento de um segundo tumor primário”, alerta.Agravamento da Covid-19

Durante a pandemia da Covid-19, vírus que atinge as vias respiratórias, o ato de fumar pode agravar ainda mais o estado de saúde de uma pessoa. Isso ocorre porque a inalação da fumaça do cigarro provoca uma redução da imunidade local no pulmão, que pode predispor infecção por vírus e bactérias.

“Imagine um paciente que tem um problema estrutural pulmonar, um problema de bronquite crônica, de enfisema no pulmão, se ainda pega o novo coronavírus, a tendência de evoluir de forma desfavorável acaba sendo muito maior”, explica a pneumologista Larissa Voss Sadigursky.

Mesmo após um paciente se curar do novo coronavírus, o ato de fumar pode continuar causando danos maiores ao pulmão. “Pense em uma pessoa que teve um quadro mais grave de Covid-19, que está em um processo de cicatrização do pulmão e pode até ficar com sequelas irreversíveis,. Se o paciente fuma, então, é mais um dano que vai ter no pulmão para piorar os sintomas”, destaca Larissa.

Além dos problemas do pulmão, o ato de fumar também pode facilitar a infecção pelo vírus, pois proporciona contato frequente dos dedos com os lábios, muitas vezes, sem adequada higienização das mãos, como lembra a oncologista Marília Sampaio.

Parar de fumar

Fácil de começar, difícil de parar. É assim que muitos fumantes definem o uso do cigarro. Natural de Porto Alegre (RS), Litiane comenta que, em Salvador, sentiu uma aceitação menor das pessoas ao cigarro e que, geralmente, elas costumavam não gostar do cheiro e incentivá-la a tentar parar.

“As pessoas do meu ciclo fumavam menos aqui e gostavam pouco do cheiro. Existia uma pressão de namorados e amigos para que eu parasse de fumar. Isso era uma coisa que eu tinha vontade de aproveitar porque eu sabia que fazia mal”, expôs.

Segundo pesquisa da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2019, Salvador é uma das cinco cidades com menor índice de fumantes com idade a partir de 18 anos, com 5,4% da população. No Brasil, esse número é de 9,8%.

De acordo com a psicóloga Liz Fernanda, da clínica Holiste, o primeiro passo é desejar parar de fumar, por mais que seja difícil tomar a iniciativa.

“Todos sabem que o cigarro faz mal à saúde, mas é preciso que a pessoa possa identificar o que a move a querer deixar de fumar. Ela deve se perguntar: 'realmente estou disposto a enfrentar esse processo que exige disciplina e mudança no estilo de vida?'”, adverte Liz.

A psicóloga destaca ainda que o tabagismo deve ser tratado de forma individual. “Tem aquela que consegue parar de vez, decide que vai parar em uma data e dá certo. Outras, já precisam ir reduzindo a quantidade de cigarros ao longo do tempo”, explica.

Outro ponto que a psicóloga orienta é tomar cuidado para não trocar uma compulsão por outra. “Parou de fumar, mas está consumindo uma quantidade maior de bebida alcoólica ou de alimentos. Vale ressaltar que não adianta ter pressa, parar de fumar exige paciência e mudança de hábitos”.Segundo a pneumologista Larissa Voss Sadigursky, é necessário praticar atividades físicas, beber bastante água durante o dia, ter sempre no bolso cravo, canela, cristal de gengibre, para quando der vontade de fumar colocar na boca, tirar cinzeiro de casa, se desfazer do local da casa que era específico para fumar - trocando os móveis de lugar, entre outras mudanças de hábito.

Após parar de fumar, Litiane alega que sentiu diversas mudanças de hábitos e rotinas que deixaram seu dia-a-dia melhor, desde o ambiente do trabalho até as viagens e saídas com amigos.

“Existia toda uma preocupação sobre onde fumar, comprar cigarro que vai acabar. Foi maravilhoso quando me livrei disso, dessa preocupação e neurose de ficar o tempo todo pensando em como fazer para poder fumar. É difícil se desapegar do hábito, da substância, dos motivos que te levam a ter uma identificação com a rotina do cigarro, mas não é impossível”, observa Litiane.

Para conseguir parar de fumar, a psicóloga indica tentar evitar tragar um cigarro, deixando de correr o risco de despertar a vontade de fumar. Além disso, evitar, de início, andar com pessoas que fumem.

“O cheiro, o hábito, algum lugar podem desencadear a vontade do uso. Aquele happy hour toda sexta-feira com os amigos pode acabar em recaída. Isso não significa que você vai parar de ter uma vida social mas, nesses primeiros momentos, ter o cuidado com esses encontros”, explica Liz.

Liz também recomenda o acompanhamento médico e psicológico como ferramentas importantes para combater a ansiedade e a abstinência do cigarro.  Benefícios de parar de fumar

    Após 20 minutos, a pressão sanguínea e o pulso voltam ao normal.
    Após 2 horas, não há mais nicotina circulando no sangue.
    Após 8 horas, os níveis de oxigênio no sangue voltam ao normal.
    Após 12 a 24 horas, os seus pulmões já funcionam melhor.
    Após 24 horas, o monóxido de carbono é eliminado do organismo.
    Após 2 dias, seu olfato e paladar funcionam melhor.
    Após 7 dias, você já estará livre da crise de abstinência.
    Após 3 semanas, a circulação melhora em todo o corpo.
    Após 1 mês, os cílios que protegem o pulmão e são responsáveis pela limpeza voltam a nascer.
    Após 3 meses, a secreção acumulada no pulmão vai ser expulsa, pois os cílios voltam a funcionar.
    Após 6 meses, o metabolismo do seu corpo se reequilibra e uma mulher ex-fumante poderá engravidar com menos riscos para o feto.
    Após 1 ano, o risco de morrer por infarto é reduzido à metade.
    Após 5 anos, o risco de infarto se reduz à metade.
    Após 5 a 10 anos, o risco de câncer de pulmão cai para a metade e o de infarto fica igual ao de quem nunca fumou.
    Aumenta a capacidade física e a energia corporal.

 

FONTE: atarde.uol.com.br  
 
 

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