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Bahia registra 79 PMs afastados das ruas por transtornos mentais
obrecarga diária, problemas pessoais, conflitos de adaptação à rotina militar e estresse são algumas das causas para o adoecimento psíquico da corporação
Sexta-Feira, 02 de Abril de 2021

A Bahia possui, atualmente, 79 policiais militares afastados do serviço por transtornos mentais. A informação é da Junta Médica do Departamento de Saúde da Policia Militar da Bahia (PMBA). Ainda segundo a entidade, esses agentes foram realocados para o serviço administrativo, fora das ruas, ou estão temporariamente afastados. Entre as causas para o adoecimento psíquico dos profissionais estão desde a sobrecarga de trabalho até operações perigosas, passando pela dificuldade de adaptação à vida militar e até problemas pessoais.



Para o presidente da Associação de Praças da Polícia e Bombeiro Militar da Bahia (APPMBA), Roque Santos, o número de colegas que passam por problemas mentais é ainda maior. “Nem sempre quem está com alguma dificuldade pede ajuda e isso gera subnotificação. Nós precisamos dar uma atenção maior à saúde mental do policial”, defende.



Roque explica que os policiais militares vivem diversas situações de pressão e sobrecarga. “O PM é um ser humano também, mas pressionado, que não tem direito de errar por causa das cobranças e faz atividades cada vez mais letais, operações perigosas, situações traumáticas. São tantas coisas que acontecem. Problemas psicológicos podem afetar todas as pessoas, mas o PM trabalha fardado, armado e tem certas obrigações. Precisamos de mais atenção do governo e do comando geral”, argumenta.



Em nota, a PM informou que o Departamento de Saúde, que funciona na Vila Policial Militar do Bonfim, tem um psiquiatra titular, mais dois em estágio de formação e quatro psicólogos no centro de reabilitação profissional. Também é oferecido atendimento psicológico em todas as grandes cidades do estado. “No momento, são 50 psicólogos que fazem palestras preventivas e atendimento de demandas pessoais e ocupacionais”, diz o texto.



O serviço na Vila Policial Militar atende policiais e seus dependentes diretos (cônjuges e filhos). As sessões são presenciais e ocorrem uma vez por semana. As marcações são realizadas através do telefone 71 3116-6384.



Rotina



Com experiência de três anos no acompanhamento de policiais militares, o psicólogo Edilson da Paz explica que a saúde mental dos profissionais de segurança não depende somente de garantir acesso à psicólogos ou psiquiatras. Para ele, é preciso que a temática seja rotineira na instituição, admitindo que situações de dificuldade e sofrimento estão diretamente relacionadas ao fazer da polícia e à qualidade do serviço ofertado.


 
"É preciso ampliar e proporcionar programas e projetos institucionais com esta temática [da saúde mental], facilitando ações coletivas e de ampliação do repertório de autocuidado pessoal. Não tornar a saúde mental algo pontual e investir ações de caráter rotineiro que possam prevenir e promover a saúde”, argumenta o psicólogo.



Já a psiquiatra Sandra Peu lembra que, embora os policiais passem diariamente por situações potencialmente prejudiciais para a saúde mental, o preconceito contra doenças mentais no meio ainda é significativo. “A psicofobia no meio militar é significativa. Se um policial diz ao superior que está em tratamento, ele é mal visto, menosprezado... isso não é exclusivo da Bahia”, destaca a especialista, que também tem experiência no atendimento de policiais. 


   
Sandra, que atende através do Planserv, o plano de saúde dos agentes de segurança do Estado, explica que muitos agentes preferem procurar o serviço privado por vergonha ou medo de que seus colegas saibam que ele está passando por algum problema. “Eu recebo policiais muito desgastados emocionalmente, abalados e com sérios problemas”, diz.


 
Exemplo



Vivian Anjo, 43 anos, assistente social da APPMBA, faz terapia com psicólogo. Ela não tem vergonha de dizer isso, pelo contrário, usa seu exemplo como forma de estimular seus colegas para perderem a vergonha. “Como assistente social, eu atendo policiais com as mais variadas demandas, alguns até em situação de vulnerabilidade, em processo de adoecimento e, se a gente não souber lidar, adoece também. Por isso, antes mesmo da pandemia comecei a terapia, mas depois que tive covid, o que foi um período difícil, intensifiquei o tratamento”, conta



Quando casos de policiais nessa situação de adoecimento mental chegam ao conhecimento de Vivian, ela busca acolher, orientar e direcionar ao atendimento profissional. “Mas temos muita dificuldade em convencê-los a reconhecer a importância do tratamento. Ainda existe o preconceito de consultar o psicólogo ou ir para a psiquiatra e isso atrapalha muitas vezes, faz com que ele se deixe levar a ponto de chegar em um estado de surto”, lamenta.  



Vice-presidente da APPM, a policial Alaice Gomes afirma que um número grande do efetivo passa por algum problema da saúde mental. “A gente sempre atua numa área que não é fácil. As demandas sociais, ausência de políticas públicas, de um profissional de saúde recaem na atividade policial. Nós precisamos buscar ajuda, todo efetivo precisa de terapia”, defende.


 
A Associação dos Oficiais Militares Estaduais da Bahia não quis se manifestar sobre o assunto.  



Wesley



O tema saúde mental dos policiais militares ganhou destaque após o caso do policial Wesley Soares, que portando um fuzil e com o rosto pintado, foi até o Farol da Barra, cartão postal de Salvador, e deu diversos tiros para cima. A cena repercutiu em todo o país. O soldado morreu após atirar contra os policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que negociavam sua rendição. Ele foi atingido em pelo menos três regiões do corpo, incluindo tórax e abdômen.



Wesley tinha 13 anos de serviço prestado na corporação e era considerado prestativo, brincalhão, sorridente e cumpridor de suas obrigações na 72ª CIMP (Itacaré). No entanto, nos últimos tempos, contaram seus colegas de farda, estava mais nervoso e se irritava com frequência, discutindo com aqueles colegas que tinham opiniões políticas divergentes das dele. O policial também não concordava em fazer cumprir o fechamento do comércio, medida adotada pelo governo do estado para combater o avanço desenfreado da pandemia, que já matou mais de 15 mil baianos e mais de 300 mil brasileiros.



O comportamento de Wesley no domingo deixou os colegas espantados. O soldado, antes de ser morto pelo Bope por volta das 18h30, invadiu o gramado em frente ao Farol, por volta de 14h20, desceu do veículo e começou a dar tiros para cima. “Nunca imaginávamos que ele fosse reagir dessa forma. Nunca apresentou surto no trabalho, não tomava remédio controlado, não usava drogas, não bebia.  Era um cara da geração saúde. Nunca sequer levou advertência”, disse um colega, na ocasião.


 


Leia o perfil completo de Wesley Soares clicando aqui.



Nove ações para preservar a saúde mental de policiais*:



1 - Incluir práticas facilitadoras da saúde mental e discursões estratégicas a respeito do tema durante as palestras educativas diárias e treinamentos de rotina durante o serviço;
2 - Investir em capacitações com praças e oficiais a respeito do tema saúde mental e seus múltiplos fatores transversais, visando contribuir diretamente para o enfrentamento da situação, diminuindo o preconceito sobre o assunto  na instituição;
3 - Criar redes de apoio, proteção e cuidado continuado em saúde mental, com ambientes de escuta e práticas de autocuidado entre as equipes, para potencializar a elaboração e o apoio mútuo quanto às experiências do trabalho;
4 - Facilitar o acesso a profissionais de saúde e de apoio como psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais e advogados;
5 - Buscar prá- ticas de autocuidado individuais, que podem ser identificadas a partir da construção de momentos para se auto-observar e identificar sensações e emoções em relação aos acontecimentos da vida e do traba- lho. Isso pode contribuir para o aumento da consciência e possibilita um direcionamento mais estratégico e eficaz dentro de cada realidade e sobre aquilo que lhes acontece em serviço;
6 -  Atentar para a existência de dificuldades envolvendo a qualidade do sono, da atenção, da vigilância e sensação de perigo constante em momentos fora do ambiente de trabalho; percepção de estresse e esgotamento, dentre outros efeitos que possam impactar na saúde mental;
7 - Ampliar o cuidado quanto a fatores como qualidade de alimentação, saúde física, gerenciamento financeiro, contexto familiar e relações interpessoais que também interferem diretamente para a condição da saúde mental;
8 - Integrar momentos de lazer à rotina diária e práticas diversas que façam sentido e estejam relacionadas a desejos e autonomia pessoal.  
9 - Buscar ajuda especializada quando não conseguir lidar com estes fatores é de fundamental importância.

 

FONTE: www.correio24horas.com.br  
 
 

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